4 de abr de 2011

A lagrima do palhaço

 
A mente divide-se do corpo. Um deseja ficar, o outro ir-se.

Saudade pode não ser calvário, mas é dor. Aquela dor que vem e vai. Vem. E vai.
É difícil escrever. Sinto-me impotente, e a vontade de deixar os dedos voarem sem rumo é inibida por algo que... não sei bem o quê.
Já não quero esconder-me na câmara escura do não-ser. Estou tão sufocado. A palma da mão chega a empurrar a porta, mas nunca leva consigo os braços, as pernas. O ser permanece lá, emaranhado em redes invisíveis, imóvel. Redes incompreensíveis aos olhos dos que não vêem a complexa e satisfatória vida podada diariamente pela consciência nossa.

É engraçado como transcorre o tempo - "implacável". Ontem tudo era cor. As mais estúpidas piadas me faziam rir, o frio não era problema, o cabelo grande e despenteado, apenas cabelo grande e despenteado.
Hoje, o espelho reflete as cicatrizes. Mostra, malévolo, os vazios, os ocos, a falta de. Tudo adquire aquela melancólica cor pastel. As horas tardam-se a passar. Deseja-se, nesses dias, que o vento leve absolutamente tudo. Que as máscaras derretam. Que o sol vaia-se de uma vez e traiga a noite, cujo mistério, afinal, conversa com a fumaça dos meus cigarros. A solidão (ou seria outro sentimento?) nunca foi amiga única. Sempre aparece, fazendo companhia até ao mais feliz dos humanos. Não preciso descrevê-la.

E não há mais a dizer. Amanhã, talvez, a sanfona que é a vida toque uma canção doce e agradável. Agora, apenas deixarei que me enfeiticem as fadas dos contos. Venham. Esperarei os sonhos ou o que queiram trazer, escutando a música suave e triste. Dormirei o sono que não descansa. Venham logo.

Porque não encontra-se no corpo o meu cansaço. Está na mente. E quer ficar.

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